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Mc 3.13-15: “Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios”

É
muito comum as pessoas pensarem em discipulado como um programa ou um evento na agenda da igreja. Perguntas como “Sua igreja tem discipulado?" ou "Quando acontecem as reuniões do discipulado na sua igreja?" mostram bem o que quero dizer. Acostumamo-nos a pensar no discipulado como uma reunião, onde um grupo de pessoas se encontram com regularidade (1 x semana), em um local menos formal do quena igreja (na casa de alguém) e é conduzida por um cristão mais maduro na fé. É indispensável ter um "currículo" em mente, algo como uma sequência de estudos sobre aspectos práticos da vida cristã ou a leitura sequencial e debate em algum livro bíblico (um dos evangelhos ou uma epístola paulina, de preferência). Não é assim que costumamos pensar no discipulado? Não é esse modelo que nossas igrejas têm adotado?

O texto de Marcos que lemos acima nos mostra que temos pensado errado sobre discipulado. Discipulado não é um evento. Discipulado não é um programa. Discipulado não é um departamento da Igreja. Discipulado é vida! Jesus escolhe aqueles que ele mesmo quis para junto de si. Após passar a noite em oração, dentro da multidão que o seguia, ele escolheu doze homens, que seriam chamados de apóstolos. Este é um grupo especial, escolhido unicamente pela vontade de Jesus, destacando-os da maioria daqueles que acompanhavam o seu ministério. Eles foram chamados para serem discípulos do mestre, para se identificarem com ele. O resultado disso, nos mostra o verso 15, é que eles seriam enviados para pregar e receberiam autoridade para expulsar demônios. Está visível no texto que o resultado do chamado de Jesus é que eles fariam as mesmas coisas que o Mestre. Seriam seus imitadores, seus discípulos.

Mas o que mais me chama a atenção nesse texto não é a verdade inegável de que Cristo chama aqueles a quem ele quer (v. 13) e nem a autoridade e poder resultantes desse chamado (v. 14b-15). É justamente a expressão que aparece no v. 14a: “designou doze para estarem com ele”. Jesus os chamou para, em primeiro lugar, de forma prioritária, principal e mais importante “estarem com ele”! Jesus não estava, prioritariamente, preocupado em ministrar um curso de capacitação para pregadores ou ensinar como se expulsam os demônios. Não há um currículo em vista ou uma rotina de encontros na casa de um deles para um tempo de leitura bíblica e orações. Jesus não estava interessado em ensinar “princípios de santidade” como se fossem “lições de casa” a estudantes. Jesus os chamou para “estarem com ele”!

Você consegue notar como nos distanciamos do modelo do Mestre e assumimos outro modelo para chamar de discipulado? Imaginamos que estamos discipulando alguém quando nos encontramos com ele regularmente para ler a Bíblia. Jesus estava propondo um relacionamento e não uma sala de aula! É claro que não minimizo o valor de nos reunirmos nos lares para ler a Bíblia e orarmos juntos. Não diminuo o valor de nos encontrarmos no culto público para juntos adorarmos ao Senhor. O que quero chamar a atenção é que discipulado é mais do que isso. A pregação faz parte do discipulado. A aula da EBD faz parte do discipulado. A reunião em pequenos grupos faz parte do discipulado. Mas nada disso será discipulado integralmente se não estiver intimamente ligado pelo laço do relacionamento. Aconselhar, confortar, orientar, exortar, animar, incentivar o irmão é também discipulado, mesmo que ocorra em horários e lugares não pré-determinados, que não siga uma apostila ou se balize na leitura de um trecho específico das Escrituras.

Os apóstolos perceberam bem o que era ser um discípulo. Pedro lembra a Jesus que eles haviam deixado as suas casas para segui-lo (Lc 18.28) e Jesus os envia para fazer discípulos (Mt 28.19). Não é sem razão que Pedro chama o evangelista Marcos de “filho” (I Pe 5.13) e que João se refere aos convertidos como “filhinhos” 9 vezes na sua primeira epístola. Não são apenas alunos, estudantes. São pessoas que vivem um relacionamento diário, constante, que experimentam um amor intenso.

Veja que não é um modelo de transmissão de conhecimento por meio (somente) de palavras, mas é instrução pela vida. É o mesmo modelo que podemos ver na relação de Moisés e Josué, Elias e Eliseu, por exemplo. É isso que Jesus afirma ao dizer “aprendei de mim” (Mt 11.29). Paulo segue a mesma linha ao afirmar para cristãos de Éfeso, que provavelmente nem viram Jesus fisicamente: “não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus” (Ef 4.21-22). Quando Jesus ora pela ressurreição de Lázaro, sua voz é audível para que servisse de aprendizado para os que estavam ao seu redor: “Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste” (Jo 11.41-42). O objetivo do discipulado é fazer com que sejamos mais parecidos com Cristo: “todo aquele, porém, que for bem instruído será como o seu mestre” (Lc 6.40) e não que obtenhamos uma gama de conhecimentos meramente intelectuais. Obviamente, a instrução faz parte do discipulado, mas limitar discipulado a ela é apequenar o que o nosso Mestre fez e que também nos envia a fazer.

Como disse David Bosch, na sua obra “Missão Transformadora”:

O ensino de Jesus é um apelo à vontade de seus ouvintes, e não primordialmente a seu intelecto; é uma conclamação a uma decisão concreta de segui-lo e submeter-se à vontade de Deus. [...] As pessoas tornadas discípulas e batizadas pelos mensageiros de Cristo devem seguir Jesus da mesma maneira como os onze o fizeram [...]. Ele próprio é agora o conteúdo de seu próprio ensinamento anterior, a corporificação do reinado de Deus, o evangelho. [...] O discipulado é determinado pela relação com o próprio Cristo, não pela conformidade com uma ordenança impessoal. O contexto disso não é a sala de aula (onde o “ensino” geralmente tem lugar), nem mesmo a igreja, e sim o mundo.

Se Cristo é o Mestre a ser imitado, o relacionamento dele com os Doze é o modelo de relacionamento de discipulado a ser adotado. Portanto, o discipulado não tem um lugar específico, mas ocorre em todo momento, em todos os lugares, nos momentos alegres e nos tristes. Discipulado é relacionamento, é vida!

Talvez você pense que não somos mais chamados, como os doze, a sairmos das nossas casas e vivermos, literalmente, 24 h por dia andando juntos. E você tem razão. Mas o fato de não vivermos e nos alimentarmos juntos não impede que compartilhemos da vida de forma mais orgânica, espontânea, amorosa e natural. Não precisamos marcar uma reunião semanal para abraçar e beijar nossos filhos, precisamos? Não é necessário formular um currículo para ensiná-los sobre as questões da vida, é? Pelo contrário! Naturalmente, pelo convívio com eles, buscamos, a todo o momento, oportunidades para estarmos juntos, para demonstrar carinho e cuidado, para ensinar de acordo com as situações diárias, em um relacionamento saudável.

Creio que a correria do dia-a-dia moderno tem nos impulsionado a individualidade que atrapalha o modelo cristão de discipulado. É mais fácil agendar uma hora por semana e sairmos do “discipulado” com a consciência tranquila que estamos discipulando (ou sendo discipulados por) alguém. Mas, espero em Deus que esse texto faça você refletir sobre a necessidade de “vivermos o discipulado”. Faça-o ver a urgência de estabelecermos relacionamentos vívidos, reais, autênticos com os nossos irmãos em Cristo, para que possamos ser um, como o Pai e Cristo são (Jo 17.21).

 

Que Deus nos ajude!

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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