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N
ão se assuste com o nosso título. Acredite, ele visa provocar nossa reflexão e robustecer nossa fé, pelas verdades bíblicas, e não colaborar com a incredulidade. Para isso, atentemos para o que está exposto em João, capítulo dois. Jesus está num casamento e acaba o vinho. Sua mãe se preocupa com o evento e tenta dirigi-lo. O próprio Jesus se revela protagonista da cena, pondo-a em seu lugar e dando ordens para que enchessem os reservatórios com água.

Depois de encherem aqueles reservatórios, Jesus manda que tirem uma porção e levem ao mestre-sala. E é este que constata que havia novamente a sua disposição o vinho para os convidados.  E que este vinho era de melhor qualidade. O mestre-sala não viu o milagre de Jesus. Os serventes puderam ver, pois foram eles mesmos que encheram as talhas e depois levaram uma porção para o mestre-sala. Mas o texto diz que os discípulos creram nele: "Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.".

 E é este o clímax do texto. Este versículo detém os aspectos mais centrais deste trecho. Na sequência destacamos três aspectos, que consideramos mais importantes...

1.O que são sinais?  Qual seria o sinônimo mais comum para o termo sinais? Creio que não há dúvidas que o mais usual seria milagre. Não vejo problema para usarmos milagre por substituição a sinais, afinal transformar água em vinho seria qualificado por qualquer pessoa como um milagre realizado por Jesus. No entanto, o que podemos notar é que há hoje certa incompreensão acerca do que são os milagres.

Creio que seja lugar comum a percepção de que milagres sejam ações específicas divinas que fogem o padrão natural da ordem estabelecida pelo próprio Deus em sua criação. Sendo assim, muitas vezes, compreendemos que Deus criou um sistema ordinário que se segue numa lógica de acontecimentos de causas e efeitos e o que foge a este padrão natural é o milagre.  Desse modo, a água transformada em vinho foge a sua ordem natural e somente a ação divina poderia realizar isso de modo sobrenatural.  Isso seria um milagre.

Os problemas dessa visão são basicamente dois. O primeiro é que, desse modo, entendemos a criação de Deus a partir de um ato criador que cria e que segue as leis criadas por Deus de modo natural, sem a intervenção contínua do Criador.  O deísmo é que defende a ideia que Deus criou e a partir de então deixa sua criação seguir de modo autônoma, sem seu controle e direção.   E isso não é verdade, não é assim que acontece. É a mão poderosa do Deus Criador que continua mantendo toda criação. A providência divina permeia toda a existência da criação. Absolutamente tudo depende de Deus para existir e se manter existindo. 

O segundo problema, dentro deste primeiro aspecto comentado, é que a visão do milagre como algo sobrenatural e essencialmente distinto do natural promove a visão de uma vida e de acontecimentos que podem ser compreendidos pela observação lógica – quando ocorrem de modo natural - e outra miraculosa que somente os crentes podem assistir. Consolidando a dicotomia entre fé e razão.

2.O outro aspecto importante nessa perspectiva é complementar ao primeiro e diz respeito a negação da visão de milagre como algo historicamente presente e contínuo em nosso cotidiano. Porque muitos não se dão conta que a intervenção divina não cessa. Temos a certeza de que todos os dias e a todos os momentos ocorrem milagres no universo, pois a presença de uma ordem e sistema que podemos observar é fruto exclusivamente da ação divina.  Nada existe e permanece existindo sem a ação divina.  Logo, para o Criador, transformar a agua em vinho não é mais difícil do que fazer a vide dar seu fruto, e nem ressuscitar o morto é mais complexo que criar e manter o sistema solar, ou ainda, fazer da semente que morre na terra surgir a árvore frutífera.  Tudo isso é milagre, no sentido de que é uma realização divina e que não ocorre por si só.  Não há hierarquia de dificuldades para o Todo Poderoso Deus. Logo, concluímos que tudo é milagre...porque não respiramos sem que Deus esteja agindo nisso. Mas também podemos quebrar essa visão dicotômica e assumirmos que não existem milagres, pois tudo, absolutamente tudo, depende de Deus. Se pensássemos assim não viveríamos atrás de milagres e viveríamos na dependência de Deus. E também seríamos mais gratos, pois veríamos suas mãos em cada momento de nossa vida. Veríamos tudo como é...fruto de um Deus que está agindo sempre...no sorriso do bebê e na cura de um câncer.

Mas, com essa visão limitada sobre o conceito de milagres acabamos por superestimar os acontecimentos que fogem ao cotidiano observável e deixamos de compreender a providência divina em todas as esferas da existência humana e de toda criação, em todo tempo (sugiro a leitura de Salmo 104).

3. Então, o Criador permite que os sinais ocorram para que possamos ver, como quem olha por uma janela, a beleza do poder criador e mantenedor de Deus em tudo.  Foi isso que Jesus fez naquele casamento:  manifestou a sua glória. O centro de sua ação não era abastecer de vinho uma família num casamento ou atender uma solicitação de sua mãe, mas manifestar a sua glória. Logo, o fim último do chamado milagre não é atender a demanda de carências humanas provisórias,  embora Deus faça isso sempre, mas  manifestar ao homem glória divina. Assim como ele fizera a André e Natanael, no capítulo um de João, Jesus se revela como o Todo poderoso Deus, o Messias Prometido. E então vemos como Jesus se utiliza de seu poder alterando uma percepção cotidiana comum com o objetivo de revelar sua deidade e promover a fé gradual em seus discípulos...atraindo-os para ele.

Dessa forma, valorize cada momento de sua vida e entenda que tudo subsiste por causa de Cristo (Cl 1.16-17), que tudo criou, e que até em seu respirar Deus está agindo em seu favor. Deus está intervindo na história e no universo até que chegue o dia que tudo será refeito, em Cristo! Logo, não jogue sua vida fora e fuja da tentação de ficar correndo atrás de milagres e de milagreiros, mas busque o Deus onipotente, onipresente e onisciente, revelado no Filho, e dele seja plenamente dependente!

 


   Autor
   Pr. Ilton Sampaio de Araújo

Ilton S. Araújo é pastor na Igreja Congregacional Campograndense, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, graduado em História e MBA em Gestão em Educação. Ilton é diretor pedagógico e também professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

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