• O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
  •  21 2418-7141

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Eclesiastes 3:1

D
esde que comecei a buscar entender um pouquinho mais sobre a literatura de sabedoria, meu amor pela Escritura que já era grande aumentou ainda mais. Nossos artigos têm sempre sido escritos debaixo da perspectiva de que toda Bíblia clama e trabalha para apresentação de Cristo, que é o ápice da Revelação e é o elemento central, a chave hermenêutica de toda e qualquer parte da Escritura. Mas talvez tenhamos certas dificuldades de perceber isso em alguns textos, porque precisam de maior reflexão. Penso ser este o caso do trecho mencionado acima. Ele é um desses onde precisamos de maior esclarecimento para entendimento de sua mensagem.

            A princípio, a maioria das pessoas pensaria que o autor estaria exaltando a realidade de que Deus possibilita um tempo determinado para que todas as coisas que ocorrem nesta vida sejam plenamente desempenhadas. Ou seja, se intentamos fazer algo existe tempo oportuno para isso. Daí, reflexões como: Seja organizado em sua vida; não se ocupe demais para não acabar com a possibilidade de que algo importante possa realmente ser feito por você. Não descarto esta possibilidade para interpretar este texto. É possível que o seu conteúdo também aponte para questões como as mencionadas. Contudo, acredito que essa é apenas uma parte da preciosidade contida neste pequeno conteúdo. Note que a afirmação do autor não é de alguém que está exaltando a possibilidade de fazer todas as coisas na vida debaixo do sol, mas sim constatando um quadro crítico, onde todos os tempos são interrompidos pelos seus opostos, ou pelos seus encerramentos. Se existe tempo de nascer, há também tempo de morrer. Se existe tempo de plantar... há também tempo de arrancar o que se plantou. Se existe tempo de edificar... há também tempo de derribar o que se edificou. A constatação é lógica mencionada no verso 9 “Que proveito tem o trabalhador naquilo o que trabalha?”. Em outras palavras, a pergunta seria: Qual é a utilidade de fazer algo se o que está ativo hoje, amanhã não estará? A medida que o texto avança, a pergunta passa a ser entendida como “De que adianta viver, se hoje estou vivo, mas amanhã morrerei?”. O autor chega à constatação de que o tempo é um agente de Deus que impõe os limites para todos os homens, pois é nele que conhecemos as maravilhas ofertadas por Deus, mas por ele também conhecemos inevitavelmente, a morte.

            Na literatura sapiencial, sabedoria não é apenas ter conhecimento a respeito do que fazer, mas essencialmente quando fazer. Ser sábio é fazer o que deve ser feito no tempo que nos resta, porque viver como se o tempo não estivesse acabando é uma baita tolice. Essa reflexão nos levou (Eu e meu amigo Ilton) à percepção da urgência da única coisa que somos convocados a fazer. Não sabíamos que ambos havíamos proclamado o Evangelho em um domingo a partir do mesmo texto. Estávamos falando do texto em que os discípulos de Cristo se depararam com um cego de nascença e perguntam ao mestre: “Quem pecou, os seus pais ou ele mesmo para que se sucedesse algo desta natureza a ele?” A resposta de Jesus enfatizou que sua cegueira não era resultado de um pecado específico de seus pais ou dele mesmo, e diante de uma declaração estonteante: “Mas para que fossem manifestas nele as obras de Deus!”. Refletir sobre isso nos faz pensar em como Cristo é o Senhor da história, especialmente, porque é muito provável que o mestre ali esteja falando em razão daquilo o que ainda iria acontecer no desdobramento do texto. Saber disso significa ser levado ao entendimento de que Deus conhece a história que se desdobrará no tempo que se apresenta(rá) diante de nós. Mais ainda, é saber que Ele comanda esse tempo para que tudo ocorra segundo sua soberana vontade.

            Mas, a despeito de perceber a supremacia do Senhor já nessas palavras, ele parece fornecer algo de valor sublime para revelar o propósito da vida no tempo concedido aos homens. Ele diz: Importa que façamos as obras daquele que me enviou enquanto é dia; a noite vem quando ninguém pode trabalhar... Eu e Ilton pudemos perceber como o Senhor estava nos conduzindo à percepção de um aspecto que ainda nos assola – o fato de que é possível que estejamos perdendo tempo se não estamos nos ocupando com as obras daquele que enviou o Filho de Deus.

            Estamos sempre dimensionando o investimento de nosso tempo no retorno que obtemos diante desta vida debaixo do Sol. Quando na verdade, em pouco tempo nosso corpo voltará ao pó. Essa é a visão do autor: Tanto ímpios como justos serão confrontados com o mesmo desafio, no término de suas vidas. O autor se depara com a realidade de que o tempo é agente que produz celeridade ao confronto de um inimigo que estava vencendo as batalhas. E é nesse ponto que podemos ver como a Escritura aponta para o Cristo e sua habilidade como Senhor do tempo. Se nós nos envolvemos em muitas coisas nesta vida, Jesus Cristo declarou: “Uma comida tenho para comer e consiste em fazer a vontade daquele que me enviou.” Da mesma maneira que não é possível encontrar ou sequer imaginar Jesus perdendo tempo com qualquer outra coisa que não se relacionasse com a sua Missão, ele foi capaz de em apenas 3 anos, apenas 3 anos – chegar ao ápice de seu propósito na cruz e declarar “ESTÁ CONSUMADO!”. Ensinou-nos, com isso, não somente sobre o bom uso do seu tempo, mas sobre o único que em seu tempo venceu o grande inimigo, a morte. Por meio de Cristo, a vida é ressignificada. Ele é a própria pedagogia do Senhor nos fazendo entender que aquele que não estava limitado pelo tempo, se condicionou à vida temporal para nos fazer entender que só há sentido nesta vida quando Cristo é o nosso fiel condutor, quando entendemos a centralidade de Deus em nossas prioridades.

            Perceba como essa certeza norteou os apóstolos, dentre os quais destaco Paulo, que se mostrou incansável, mesmo enfatizando que era um filho gerado fora do tempo. Sua vida, após sua conversão, foi de total dedicação que ao final de sua vida pôde declarar: “Combati o bom combate, encerrei a carreira, e guardei a fé!”. Talvez alguém poderia dizer: Mas Paulo e outros apóstolos foram inspirados por Deus e até mesmo serviram como instrumentos para escrever a Bíblia. No entanto, é importante lembrar que estes eram homens como nós. Aliás, você provavelmente já ouviu falar de homens como Jonathan Edwards que viveu uma vida de dedicação ao Evangelho de Cristo Jesus, ou Mesmo Robert Murray Mccheyne – que ao se deparar com a morte de seu irmão mais vellho, se converteu ao Senhor Jesus Cristo e a partir daquele momento dedicou inteiramente sua vida a Cristo, pregando no Reino Unido e em Israel. Viveu apenas onze anos após sua conversão, mas o impacto de sua vida redundou em anos de avivamento na Escócia. Onze anos foram sentidos como se fossem onze vidas.

             Concluo refletindo se fôssemos confrontados com a iminência da morte, sabendo que restam alguns meses, semanas, dias, horas, minutos... O que diríamos? Ousaríamos falar “Senhor, obrigado porque me destes forças para fazer a tua vontade e fiz; me destes uma ordem a fazer e efetivamente realizei tudo o que deveria fazer; agora só me resta a coroa da justiça!” Sabe por que vemos muitos crentes desesperados quando estão à beira da morte? Porque sabem que não fizeram nada no tempo que lhes foi concedido e chegaram à constatação que jogaram suas vidas fora!

             Os valores desta vida se tornam nulos diante do peso da busca de nossos próprios prazeres. Como diz o Pregador – é correr atrás do vento! (Já experimentou fazer isso?) Não tem sentido! Será que ainda hoje você está sendo assolado pelo senso de que sua vida ainda não encontrou o sentido que redunda em satisfação à tua alma? Será que ainda hoje você parece que está correndo atrás do vento? Será que ainda hoje você não sabe para onde estão te guiando os passos? Será que ainda hoje nos dedicamos mais aquilo que redunda em pecado? Talvez seja o momento oportuno para refletir se você não está sendo guiado pelo seu próprio coração, pelos seus sonhos, pelos seus prazeres, pelos seus desafios... quando a única coisa que importa é que façamos a vontade daquele que o filho enviou, enquanto há tempo.

 

 


   Autor
   Pr. Jonatas Bento

Jontas Bento é pastor na Igreja Metodista Ortodoxa no Km32, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Especialista em Teologia Bíblica AT. Jonatas também é professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

Voltar