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Jd 1: “Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo”

E
screvi outros dois textos em uma série que chamei de “Tesouros Desprezados” [i], uma vez que se baseiam em livros bíblicos pouco lidos e, portanto, conhecidos. Esses livros contêm verdadeiros tesouros que, por desconhecimento, têm sido desprezados. Hoje, quero trazer um texto de um dos meus livros bíblicos favoritos: Judas. 

É bem provável que a epístola de Judas seja um dos livros menos lidos na Bíblia. Apesar de alguns acharem que foi escrita por Judas Iscariotes (!!!???), seu autor foi o irmão de Jesus, que se tornou um servo fiel em algum momento entre a morte e a ressurreição do Mestre. O início da epístola traz, logo de cara, um grande tesouro que gostaria de observar com vocês.

Judas vai identificar seus leitores por três características[ii] daqueles que foram salvos por Cristo. Eles são CHAMADOS, AMADOS e GUARDADOS. De forma direta e sucinta, Judas resume três elementos muito importantes da salvação. Note que ele inicia dizendo que eles foram chamados. É o primeiro passo redentivo que o homem consegue perceber. Estando afastado de Deus e morto em seus delitos e pecados, o pecador é chamado de forma irresistível pela graça divina e, diante de tal ação da parte de Deus em sua direção, ele responde positivamente ao convencimento do Espírito.

Depois, Judas diz que eles são “amados em Deus Pai”. O amor divino é um elemento essencial à salvação. Somos salvos porque Deus nos amou e enviou seu Filho para morrer no nosso lugar. Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro e sem o seu amor é impossível caminharmos diante dEle. Deve ter sido bastante confortador para seus leitores saberem que Deus os ama e que foi Ele mesmo quem os chamou.

Mas quero me concentrar no último termo da identificação dos cristãos. Judas afirma que eles são “guardados em Jesus Cristo”. A palavra grega traduzida aqui por “guardar” ou “preservar” em algumas versões é τηρέω (teréo). Essa palavra não significa guardar no sentido de proteger, mas de “manter sob guarda” ou de “reservar em”. Nesse sentido, o que Judas está afirmando não é que esses irmãos estavam sendo protegidos em Jesus Cristo, como quando alguém é livre das lutas ou tribulações. Não significa que eles não enfrentariam mais problemas ou que escapariam ilesos das prisões ou perseguições. Judas está afirmando que eles seriam preservados ao estarem ligados a Cristo Jesus.

Talvez uma ilustração seja útil para esclarecer o significado. Imagine que você guarde uma moeda dentro de um cofre lacrado. Em certo sentido, a moeda está protegida pelo cofre, que impede a ação de assaltantes, mas essa proteção é decorrente do fato dela estar inserida dentro do cofre. O que faz com que o cofre seja um elemento de proteção pra aquela moeda é o fato de que a moeda está dentro dele. Ou seja, por estarem unidos a Cristo, ele mantém guarda sobre seus filhos. Ninguém os pode arrebatar das suas mãos! Como Jesus mesmo já havia dito anteriormente, “as minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28).

O objetivo de Judas com essa apresentação é trazer conforto ao coração dos irmãos que receberam aquela epístola. Ele irá tratar em toda a carta do castigo dos infiéis, que tem entrado nas igrejas e trazido uma falsa mensagem. Por causa disso, Judas não deseja que essa manifestação da ira divina obscureça os olhos deles para perceberem o favor e a graça de Deus que os havia alcançado. Ele quer trazer segurança e evitar que fiquem incertos ou pesarosos sobre o futuro deles. Mesmo que falsos mestres tenham se infiltrado, mesmo que muitos tenham se desviado da verdade, esses são “homens ímpios que foram antecipadamente pronunciados para esta condenação” (Jd 4). Não é o que Judas considera ser a realidade dos seus leitores. Tanto que, no final da epístola, em uma doxologia de marejar os olhos, ele reafirma essa ideia ao colocar Jesus como um sentinela que nos protege de tropeçar: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar (φύλαξ – guarda, sentinela) de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24).

Ao mesmo tempo em que Judas apresenta a segurança do cristão, também refreia todo o orgulho humano ao mostrar que os salvos mantém-se de pé diante de Deus exclusivamente pela obra de Cristo, que os sustenta e guarda. No argumento de Judas, é impossível que um salvo se perca, pois quem o guarda e o irá apresentar diante do Pai é o próprio Cristo. Isso implica que o cristão não se mantém salvo pelo seu esforço, pela sua busca por santificação ou por sua forte inclinação pessoal para com Deus. É Cristo quem se porta como uma sentinela e impede que o cristão tropece (perca a salvação). Aqueles que foram “chamados” e “amados”, serão “guardados”! Não há outra possibilidade!

Alguns consideram que esse tipo de mensagem pode levar os cristãos na direção do pecado, por não sentirem que precisam lutar pela santificação ou que, mesmo se viverem em pecado, já estarão salvos. Eu penso justamente o contrário! Em primeiro lugar, entendo que pessoas verdadeiramente regeneradas não se inclinam a tais pensamentos. Se é pelo frutos que conhecemos a árvore (Mt 7.20), o cristão verdadeiro produzirá frutos de santidade. Mas, além disso e de forma ainda mais importante, compreender que quem o preserva e o mantém é o próprio Jesus o afasta do pecado do orgulho espiritual, da auto-justificação, do legalismo e da suficiência em si mesmo. Ele passa a reconhecer que a obra de Cristo é ainda maior do que salvá-lo. Além disso, o que já seria muito maior do que poderíamos fazer, a obra de Jesus envolve nos manter salvos! Não podemos nos perder porque nada, nem ninguém (nem nós mesmos!) pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus!

Se você luta contra a incerteza e a insegurança do seu futuro eterno, há conforto em saber que é Ele quem nos preserva: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Se, por outro lado, sua tendência pecaminosa é a soberba de se considerar forte o suficiente para vencer o pecado e se manter fiel, essa mensagem o ajuda a acertar sua visão, trazendo-o à humildade característica daqueles que sabem que nada podem sem Cristo. É por estarmos “em Cristo”, unidos de forma inseparável dele, que podemos ter confiança no futuro!

Quero terminar com uma história real ocorrida séculos atrás. Conta-se que um pastor foi visitar uma irmã que estava moribunda em seu leito. Ao vê-la aguardar a morte chegar em sua casa, resolveu certificar-se de que ela tinha certeza da sua salvação. Então, perguntou-lhe:

- “Minha irmã, você tem certeza do seu destino eterno com Cristo?”

- “Sim, pastor.” Respondeu ela. “Tenho certeza que, quando partir desta vida, me encontrarei com o meu Senhor e poderei adorá-lo para sempre.”

O pastor insistiu:

- “Mas, como você sabe que não escorregará dos seus dedos enquanto for levada ao céu?”

- “Por tudo o que tenho aprendido, pastor”, respondeu a irmã confiante.

- “Como assim?” Perguntou o pastor ainda incrédulo.

- “Como eu poderia me perder, pastor? Tenho aprendido que sou um membro do corpo de Cristo. Se eu me perder, ficaria Cristo aleijado por toda eternidade?”    

Que o Senhor nos ajude a ter essa confiança, de que somos salvos e preservado por Ele. O mesmo Deus que nos escolheu antes da fundação do mundo, que nos amou com um amor eterno, que nos chamou de for a irresistível e que nos convenceu com seu Espírito é o mesmo Deus que nos preserva e, um dia, irá nos glorificar!

Se toda a obra é dEle, podemos descansar.

Se toda a obra é dEle, toda glória também é!

 



[ii] Judas usa, diversas vezes em sua epístola, “séries de 3”. É uma marca distintiva da sua característica literária, mas também bem presente na forma geral dos judeus escreverem.


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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