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Tendo-se envelhecido Isaque e já não podendo ver, porque os olhos se lhe enfraqueciam, chamou a Esaú, seu filho mais velho, e lhe disse: Meu filho! Respondeu ele: Aqui estou! (Gênesis 27.1).

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O cenário é conhecido. Isaque está velho, embora ainda iria viver mais algumas décadas, sua visão está vacilante e ele mesmo solicita que uma definição se estabeleça em sua casa. Esaú é chamado e o patriarca Isaque quer abençoar o filho mais velho, como de costume, dando o reconhecimento de que este seria seu principal herdeiro. Mas algo se estabelecera antes. Não somente o acordo, aparentemente esquecido por Esaú, realizado entre os irmãos na troca da primogenitura por um prato de lentilhas, mas a própria definição divina de que uma ordem se estabeleceria entre eles parece ter sido posta de lado, como podemos observar no que antes tinha sido predito.

Os filhos lutavam no ventre dela; então, disse: Se é assim, por que vivo eu? E consultou ao SENHOR. Respondeu-lhe o SENHOR: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço. (Gênesis 25. 22-23).

       No entanto, sem a desconsideração da promessa do Deus de Abraão e Isaque acerca de Jacó neste relato, algo nos faz refletir no decorrer dessa narrativa, nos fazendo atentar para um aspecto familiar interessante. Algo que se destaca e que se contrapõe a santidade do Deus que chamou Abrão de sua vida envolta na idolatria. Esse aspecto é evidenciado em todo trecho. Refiro-me a conclusão de que estamos diante de uma família onde não há ninguém que se evidencie como bom exemplo. Arriscaria dizer, sem querer ser deselegante, que estes personagens são bons exemplos, isso sim, de pessoas mentirosas e egoístas, especialistas em ``simulações``.  Tudo longe de uma vida que revele intimidade com Deus e o cuidado e o respeito com o outro. E tudo isso dentro da mesma casa.

       Essa, portanto, será nossa observação neste texto, a percepção de como cada um dos integrantes dessa família não merecia nada da parte de Deus. Eram desobedientes e negligentes ao que acontecera até aquele momento, quando Deus preservara e cuidara de seus antepassados.

       Falemos primeiro de Isaque, o patriarca. É relevante em nossa análise observarmos que ele dá início a conversa solicitando algo que já tinha sido abordado pelo menos duas vezes. Havia a impossibilidade de Esaú continuar tendo o direito ao domínio sobre seu irmão. Primeiro porque isso já havia sido dito por Deus para sua esposa, Rebeca, ainda no período de gestação, e depois porque o mais velho, ``morrendo de fome``, vendera seu direito a seu irmão. Mas não só isso depõe contra Isaque, porque ainda podemos considerar sua ignorância acerca dos fatos ou de sua impossibilidade em mudar o fato de que um tinha o direito natural, mas sua conduta revela um homem que manifesta preferência por um de seus filhos, a saber Esaú.

       Ainda sobre Isaque, ele já havia repetido o pecado de seu pai e entregado sua mulher ao rei Abimeleque, para se proteger. Tudo isso se contrapondo, no mínimo, ao ambiente romântico de seu encontro com a prometida e esperada Rebeca. E o contrário do que é descrito na narrativa de seu pai, onde a velhice é acompanhada por um crescimento de sua fé, o Isaque que caminha com seu pai até Moriá e tinha esperado pela promessa que se materializaria com a chegada da esposa, tem apenas descritas, majoritariamente, atitudes e comportamentos não elogiáveis. Portanto, um esposo e um pai questionável, pelo menos, em sua pecaminosidade.

       Já Rebeca, dá-nos a impressão de ter considerado a profecia acerca de Jacó, mas ao mesmo tempo tem por esse clara preferência, em detrimento de Esaú. A expressão do capítulo vinte e sete de Gênesis ``seu filho``, que é acompanhado pelo pronome ``seu``, para se referir a Esaú como filho de Isaque e Jacó como filho de Rebeca, revela clara predileção dos pais. Mas o que mais chama a atenção nela neste momento é sua capacidade de armar um plano inescrupuloso, longe da liderança de seu marido, com o objetivo claro de enganá-lo. Rebeca também nega a ideia anterior – onde se via uma mulher que deixara tudo para obedecer a vontade de Deus e que, por isso, é conduzida pelo mesmo Deus a amar seu noivo prometido imediatamente ao vê-lo. Da beleza da entrega de fé e da cumplicidade com seu marido ao plano engendrado para enganá-lo sorrateiramente, conduzindo um filho e desprezando outro. Uma lástima, que resultaria no ódio entre os irmãos.

       O terceiro personagem é Esaú. Este foi o que vendeu sua primogenitura, como algo menor, por uma porção de lentilhas. Os bens, o privilégio, a honra e a responsabilidade de receber a bênção do pai foi desprezada como algo menor. Revelava-se aí um homem negligente e imediatista, egoísta e que não valorizava o que recebia. Sua vida familiar desonrava a tradição e a necessidade de não se mesclar etnias -  por isso o servo de Abraão foi enviado para que Isaque não se casasse com mulheres daquela terra e também por isso Jacó foi enviado para a mesma região mesopotâmica. Ele, no entanto, casou-se com mulheres cananeias e sua descendência se tornaria inimiga histórica de Israel. Esaú, também chamado Edom, construiu inimizade dentro de casa, que se prolongaria para posteridade, o que também lhe fora imputado por culpa.

       Enviou Moisés, de Cades, mensageiros ao rei de Edom, a dizer-lhe: Assim diz teu irmão Israel: Bem sabes todo o trabalho que nos tem sobrevindo; como nossos pais desceram ao Egito, e nós no Egito habitamos muito tempo, e como os egípcios nos maltrataram, a nós e a nossos pais; e clamamos ao SENHOR, e ele ouviu a nossa voz, e mandou o Anjo, e nos tirou do Egito. E eis que estamos em Cades, cidade nos confins do teu país. Deixa-nos passar pela tua terra; não o faremos pelo campo, nem pelas vinhas, nem beberemos a água dos poços; iremos pela estrada real; não nos desviaremos para a direita nem para a esquerda, até que passemos pelo teu país. Porém Edom lhe disse: Não passarás por mim, para que não saia eu de espada ao teu encontro. (Números 20.14-18).

       Por último temos Jacó. O mais mencionado entre os filhos de Isaque, porque de sua descendência viria as doze tribo que constituiriam a nação de Israel. Esse nome, Israel, que seria a forma nominal mais conhecida desse povo, seria um legado dado ao filho mais novo de Isaque. E apesar dessa relevância histórica, este personagem foi um usurpador. Foi alguém que desejava desde sempre o que não lhe pertencia e fora capaz de trair de uma só vez seu pai e seu irmão. Jacó foi aquele que aguardou a fragilidade de seu irmão para lhe oferecer algo – neste caso um cozido com lentilhas – para se apropriar daquilo que não era seu. Em sua trajetória, descrita em Gênesis, por vezes se revelou descrente das promessas de Deus e foi capaz de fugir, sem avisos prévios, da presença de seu sogro Labão...quem também não era um primor de caráter. Portanto, aquele que daria origem as tribos de Israel foi durante muito tempo um fugitivo medroso, que escapava da possibilidade de receber a pena de sua desonestidade.

       Talvez você já tenha percebido o que queremos mostrar neste texto. Evidencia-se nesta construção, observada na própria Escritura, que estamos diante de uma família caótica. Uma casa composta por pessoas pecadoras a tal ponto que desprezaram aspectos e laços familiares que muitos descrentes não desprezariam. No entanto, não os desprezamos e até reverenciamos continuamente os patriarcas da Bíblia. E devemos mesmo fazê-lo, porque a própria Bíblia o faz. Repare que, quando Deus se dirige a Moisés, no episodio da sarça que ardia, em Êxodo três, o próprio Deus se identifica como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó...note que dois dos que falamos estão nesta expressão dita a Moisés. Parece uma contradição? Tão desprezíveis em suas atitudes e tão valorizados por Deus. Não, não é uma contradição. Apenas é a indicação verdadeira de que estas pessoas não mereciam nada e de que eram pessoas comuns. Ou seja, egoístas, corrompidas e auto adoradoras. Uma família onde todos estavam doentes em seus pecados.

       A história descrita, portanto, em Gênesis não é a história de pessoas ou de uma nação especial, no sentido de serem ou constituírem um grupo melhorado. São pessoas terríveis. São pessoas que foram acolhidas por um Deus que em sua benignidade se distingue dos que ama. Toda essa análise deve nos levar a pelo menos três conclusões:

  1. Os patriarcas foram relevantes pelo chamado que receberam. Foram feitos heróis da fé, como Abraão foi citado em Hebreus onze, por quem os chamou. Jacó foi desonesto e usurpador e mesmo assim foi definido como origem de Israel, o pai das doze tribos e daria o nome a sua nação. Logo, assim como todos os demais, ele era pecador e apenas teve suas mazelas publicadas por Deus, enquanto as minhas ficam guardadas, na maioria das vezes, onde somente Deus sabe e vê. Deus escolheu homens e mulheres perversos para serem ascendência de Jesus, como povo escolhido que revelaria o Messias, porque não teria nenhum que não tivesse esses atributos. Todos pecaram. Portanto, a narrativa bíblica não fala de pessoas especiais, mas de um homem especial, um homem bom, que morreu pelos maus. Deus, na sua benignidade, se fez homem para se fazer maldito pelo malditos.
  2. A casa de Isaque foi um desastre porque era formada por pessoas comuns. Não existe família perfeita, simplesmente, porque não há pessoas perfeitas. Nosso desafio é mortificar o que somos e vivermos na dependência daquele que nos chamou. E assim sermos por Ele aperfeiçoados e termos famílias que revelem a misericórdia e a graça, mas nunca perfeitas. Somos, neste sentido, como os patriarcas. Enquanto eles apontavam para o Cristo que viria, apesar de todas as suas limitações e pecados, nós, em nossas limitações e pecados, também apontamos para o Cristo, que já veio, foi crucificado e ressurgiu. Podemos ser melhores na medida que formos menos de nós mesmos e mais dEle. Mas não podemos perder de vista nosso chamado, a despeito do que somos.
  3. Toda essa demonstração de nossa realidade corrompida descrita no capítulo vinte e sete de Gênesis nos revela o contraponto, que é a maravilhosa e incansável graça de Deus. Em cada texto bíblico que é demonstrada a corrupção dos personagens citados, toda a malícia  humana é representada. Somos todos como Isaque, Rebeca, Esaú e Jacó em todos as suas perversidades. Mas todos esses são apenas emblemas do que todos nós somos. Não há ninguém que se livre da verdade de que somos maus e produzimos maldade. Porém, tudo isso aponta para algo que sobrepõe nossa maligna produção: a graça de Deus. Ela é a porta que se abre diante dos que não poderiam atravessa-la e, ao mesmo tempo, a forte mão que arranca os débeis  e intransitáveis para onde jamais poderiam chegar sozinhos. A graça é uma dádiva de Deus, pois ele ama de modo incomparável quem não merecia. A graça faz-se superior ao pecado, pois ela é divina e nossa maldade nos pertence. Deus é maior! Maior do que nós somos e maior que os nossos pecados! A graça nos liga a Deus, em Cristo.

      Portanto, torna-se evidente a mensagem de Gênesis, capítulo vinte e sete, a clara demonstração de quem somos diante da incapacidade de sermos distintos de nossa natureza decaída. Somos como os personagens descritos, em parte como membros de uma família onde todos estão doentes. Uma doença sem cura por nossas mãos. O pecado é a nossa doença, algo que, embora mal, gostamos e reproduzimos, como parte integrante de nós mesmos. Somente o que é distinto de nós e ao mesmo tempo semelhantemente próximo poderia nos livrar do que nos é tão naturalmente comum. Deus nos amou, ofertando-se como quem se faz doente sendo são, para nos resgatar. Jesus Cristo é essa oferta.  A graça é suficientemente maior, porque é a ação favorável de um Deus santo que se fez culpado por nós. Mais do que isso, Ele fez isso por Ele mesmo, pois Deus decidiu nos amar e nada poderia detê-lo. Portanto, Cristo é a suprema manifestação do amor de Deus e de seu poder para com a humanidade e a única possibilidade de não ficarmos como estávamos, de vivermos como somos. 

 


   Autor
   Pr. Ilton Sampaio de Araújo

Ilton S. Araújo é pastor na Igreja Congregacional Campograndense, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, graduado em História e MBA em Gestão em Educação. Ilton é diretor pedagógico e também professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

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