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Am 9.11-12: “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas.”

J
á reparou como nós temos a tendência de criar nossas preferências e passarmos a ter uma relação direta com elas, desprezando as demais opções? Gostamos de certo tipo de filme (aventura, ação, comédia, suspense, terror, etc) e, consequentemente, passamos a buscar esse tipo de filmes para assistir, desprezando os demais estilos. Pode ser que um filme espetacular tenha sido lançado, mas, como ele não é exatamente do nosso tipo preferido, não assistimos e nunca descobriremos quão bom ele é. Temos preferência por alguns tipos de comida e nem experimentamos outras, por julgar que não nos agradará. Pode ser que um tempero ou uma forma diferente de preparar pode torna-lo apetitoso, mas não saberemos simplesmente por que não provamos. Fazemos o mesmo com a música, lugares, pessoas e tantas outras coisas, sem nem mesmo nos atentar que desperdiçamos tantas oportunidades de conhecer coisas novas só porque não se encaixam, instantaneamente, em nossa preferência. É como se concluíssemos, logo de cara, que aquilo não nos trará nenhum prazer, nenhuma recompensa e, portanto, não vale o nosso tempo e atenção.

Infelizmente, levamos essa mesma mentalidade para a nossa leitura bíblica. Por motivos variados, escolhemos alguns livros ou autores bíblicos para nutrir nossas preferências. Eu sei que isso é normal e quase inevitável. Também tenho os meus livros bíblicos prediletos. O problema está quando passamos a nos alimentar somente deles, desprezando outras porções da Escritura. Esse tipo de dieta seletiva levará o crente a um “desbalanceamento nutricional bíblico” e, consequentemente, a fragilidade espiritual. O próprio apóstolo Paulo reconhece esse perigo quando destaca que “toda a Escritura é [...] útil” (II Tm 3.16) e que seu ministério se baseou em “anunciar todo o desígnio de Deus” (At 20.27).

Tente um exercício de memória e você concordará comigo: Compare quantas pregações você já ouviu em Romanos, Salmos, João, Efésios ou Gênesis com o número de pregações que você ouviu em Levítico, Números, Amós, Naum, Sofonias, Filemon, Tito ou Judas. Compare quantas vezes você separou para sua meditação diária um texto dos Evangelhos e quantas vezes fez o mesmo em Eclesiastes, Cântico dos cânticos ou Joel. Percebe como somos seletivos em nossas leituras bíblicas e pregações?

Pensando nisso, resolvi escrever uma série de textos sob o título “tesouros desprezados”. Escolhi esse título porque é exatamente assim que vejo a situação. Existem tantos textos bíblicos que são verdadeiros tesouros, mas que têm sido desprezados por não fazerem parte dos livros preferidos e, portanto, lidos. Se toda a Bíblia é igualmente inspirada, não deveríamos nos alimentar regularmente de toda ela, seja um salmo ou um profeta menor, um evangelho ou um livro da lei, uma epístola paulina ou um livro histórico?

Nesse primeiro texto, escolhi uma passagem do profeta Amós. O verso em questão (Am 9.11) é até conhecido, mas serve bem para ilustrar como julgamos conhecer um livro porque já ouvimos um verso isolado dele. O profeta Amós inicia seu livro com seus oráculos contra as nações (Am 1.3-2.16). Nesse trecho, o profeta usa uma forma característica de anunciar sua mensagem para seis nações estrangeiras: Damasco (capital da Síria), Gaza, Tiro, Edom, Amom e Moabe, além de Judá e Israel que são pronunciados como os dois últimos grupos. Para todos eles, o profeta usa a mesma estrutura:

Assim diz o SENHOR: Introdução indicando a fonte do pronunciamento;

Por três transgressões de [...], sim por quatro”: Paralelismo numérico ascendente para representar a grande quantidade de transgressões e a sua continuidade;

não retirarei o castigo”: Indicação da decisão divina em trazer o castigo sobre esses povos;

porque...”: Uma descrição do pecado na referida nação, o motivo da ira divina;

por isso, porei fogo...”: Uma descrição do castigo.

Ao usar essa estrutura, Amós destaca que Deus conhece perfeitamente a cada um desses povos. Nada, nem ninguém, está encoberto aos seus olhos! É, portanto, uma demonstração do interesse divino sobre todos os povos e não somente sobre Israel e Judá. Chama ainda mais a atenção o fato do pronunciamento sobre Israel (o último) ser apresentado como o ápice desses oráculos, inclusive pela extensão do relato. O objetivo é mostrar que sobre Israel repousa uma responsabilidade ainda maior do que sobre os demais povos.

Podemos nos perguntar, uma vez que ele profetiza para o povo de Israel, por que o profeta inicia seu ministério falando para as nações vizinhas? Por que ele falaria para povos gentílicos se o seu foco são os israelitas? Uma resposta a essas perguntas é que o profeta estaria usando um recurso retórico ao mostrar, em primeiro lugar, o pecado dos demais povos para que, quando os pecados de Judá e Israel fossem apresentados, eles não tivessem como negar a veracidade das suas palavras. Além disso, teriam que admitir que haviam se tornado tão pecadores quanto eles (ou ainda piores... veja a comparação com o Egito, Sodoma e Gomorra em Am 4.10-11).

Entretanto, o motivo mais forte é mostrar como eles tinham falhado em ser benção entre os seus vizinhos. Quando as nações são acusadas, o povo de Israel e Judá são lembrados que eles em nada contribuíram para iluminar esses povos com a Palavra de Deus. Lembre-se que Abraão foi chamado para ser benção para as demais famílias da terra (Gn 12.1-3). Esse texto tem um cumprimento final e escatológico em Cristo, mas já deveria ser vivenciado no período do Antigo Testamento, uma vez que Deus os chamara para um serviço sacerdotal entre as nações (Ex 19.6; Dt 4.5-8; Is 42.6). Esse serviço implica que Israel deveria fazer essa mediação, conduzido os demais povos a Deus, como o sacerdote fazia individualmente com cada israelita. Uma vez que o povo de Deus fora colocado naquela terra para abençoar as nações com a instrução na Lei e com um modelo de vida, as nações deveriam ter em Israel uma demonstração vívida de como colocar essa instrução em prática, missão em que eles claramente falharam.

No final de Amós, temos o texto (Am 9.11-12) que lemos logo no início. É uma profecia sobre a restauração da adoração em Israel, no retorno do exílio, mas que apontava mais a frente, nos levando a olhar para a ressurreição de Cristo. Note que é nessa perspectiva que Tiago interpreta Am 9.11 à luz dos acontecimentos do Novo Testamento (At 15.16). Entretanto, o verso 12 também deveria chamar a nossa atenção. Amós diz que o objetivo dessa restauração do tabernáculo caído de Davi é “para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas”. Uma leitura rápida pode nos levar a interpretação triunfalista de que a profecia se referia a vitória dos judeus sobre seus inimigos. Mas essa não é interpretação correta. Veja como Tiago cita esse texto, trazendo uma melhor interpretação a ele: “Para que os demais homens busquem o Senhor e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos” (At 15.17-18). Tiago esclarece que “possuir o restante de Edom e todas as nações” não é uma expressão de vitória, mas de incorporação. O irmão do Senhor mostra que a profecia se cumpre pelo fato de que, após a ressurreição de Cristo (a restauração do tabernáculo caído), os gentios seriam mais claramente incorporados no povo de Deus. Não haveria mais separação entre judeus e gentios, tendo ambos livre acesso à Palavra de Deus, ao Messias e a adoração.

Consegue perceber que mensagem esclarecedora? Amós já dizia, quase 800 anos antes de Cristo, que judeus e gentios estariam unidos no mesmo povo diante de Deus. Exatamente o que Paulo repetiu muito tempo depois: “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade” (Ef 2.14-16).

Os israelitas deveriam ter percebido que seu chamado não era exclusivista. Deus não era propriedade de um povo único, mas que eles foram chamados com o propósito de serem luz aos gentios, sacerdotes no mundo de Deus, modelo de vida e benção a todos os povos. Não há espaço para uma visão soberba por parte dos judeus, que se consideravam como o único povo alcançado pela ação divina no AT. Esse orgulho nacionalista já havia sido confrontado pelo profeta Amós em outro texto que deveria nos impressionar: “Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? diz o SENHOR. Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus, e de Quir, os siros?” (Am 9.7). Ele destaca não apenas que todos os povos são iguais aos seus olhos, como mesmo o êxodo, relembrado como expressão de amor divino pelos descendentes de Abraão, não era um ato isolado de Deus. Ele também havia promovido outros “êxodos” com os filisteus, tirando-os de Caftor, e com os siros, tirando-os de Quir. Deus é o Senhor que reina sobre todos os povos e seu agir não é restrito a uma nação! Amós deixa claro que Deus não pertence a um povo e que não age somente em Israel. Ele é o Senhor sobre todos, tem interesse em homens de todos os povos e está reinando de forma ativa em todas as nações, tanto hoje, como no Antigo Testamento.

Da mesma forma, somos chamados por Deus para exercer uma influência positiva e evangelizadora no mundo em que vivemos. Há uma responsabilidade grande sobre nós de sermos benção para as nações, através da pregação do evangelho de Cristo. Mesmo reconhecendo que a obra é do Espírito Santo, não podemos negligenciar o fato de que somos chamados a fazer discípulos de Cristo em todas as nações e que é nossa responsabilidade ser benção. Que o Senhor nos ajude a cumprir o nosso chamado para que seu nome seja exaltado entre as nações!

 

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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