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Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito.

O
texto de Gênesis, capítulo dezessete, se dá treze anos depois de Abrão ter cedido a indicação de Sarai, sua esposa, e de ter tido um filho com sua serva Agar. Naquele momento, eles preferiram um atalho. Na tentativa de ver cumprida a promessa de Deus, que inúmeras vezes havia falado acerca da numerosa descendência que viria de Abrão com sua esposa e dado sinais materializados de sua aliança, Abrão ainda não vive sua maturidade espiritual, apesar da idade. Ainda iria crescer em fé, que é dom de Deus.

            É neste contexto que Deus o chama e muda seu nome e de sua esposa. É neste contexto que o mesmo Deus estabelece a circuncisão como emblema da marca de um povo escolhido, o que apontaria para marca ampliada do batismo para os que cressem em Cristo, seu povo além das definições étnicas e nacionais. E é neste cenário que Deus aparece a Abrão e diz... Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito.

            Três expressões poderiam servir para nossa análise neste trecho. A primeira se refere a revelação do Deus que é Todo-Poderoso –  El Shadday. Esta expressão ganha relevância pois se contrapõe a incredulidade de Abrão e Sarai, mesmo diante de várias demonstrações da pessoa divina com quem eles se relacionavam. Era o Criador que os chamara da terra idólatra de Ur dos Caldeus, que os resgatara da mentira que viviam no Egito, que dera a Abrão a capacidade de promover redenção ao capturado Ló e feito aliança perpétua com o mesmo Abrão, passando entre animais partidos, como sinal de sua exclusiva capacidade de ser fiel. Neste momento se revelar como o Todo-Poderoso é mais uma palavra para acrescentar fé ao coração de Abrão. O Todo-Poderoso estava com ele.

            A outra expressão – a terceira na ordem bíblica – revela que, apesar da pecaminosidade de Abrão, o padrão divino nunca é alterado. Ele é perfeito como Deus e exige que sejamos perfeitos como criaturas. Deus não negocia seus padrões e parâmetros e por isso Adão e Eva não puderam continuar no Paraíso, porque Deus nunca comunga com o pecado. Também por isso a necessidade de um homem perfeito para ocupar nosso lugar na condenação que nos caberia e para que este homem perfeito pudesse estar junto de Deus, onde nele somos reconciliados com o Pai. Os padrões divinos nos são apresentados de modo imutáveis e nunca se adequaram a nossa condição volúvel comportamental. Deus é imutável, assim como seu padrão de exigências.

E Deus exige do imperfeito Abrão o seguinte: sê perfeito! Abrão sofre por saber quem é. Ele não pode ser perfeito. Ele é imperfeito.  Por isso podemos ler no versículo três, que se segue: Prostrou-se Abrão, rosto em terra....  Abrão precisa de Cristo. É o Cristo que o representaria diante do Pai e foi por Cristo que Abrão pode ser apresentado perfeitamente aceitável diante de Deus! Nisso sua incapacidade de ser perfeito se notabiliza, na mesma medida que aponta para o perfeito de Deus, Cristo Jesus, Deus encarnado!

Mas é a segunda expressão que quero destacar agora. Deus chama Abraão, o imperfeito Abraão, para caminhar com ele. Cristo mediava esta relação. O seu sangue alcançava de modo anacrônico a vida do esposo de Sara, assim como a ela. E Deus define o que ele precisava fazer: anda na minha presença. Essa expressão pode nos conduzir a aspectos que precisamos incluir em nossa reflexão.

Primeiramente, precisamos lembrar que Deus nos fez para nos relacionarmos com ele. Mas o pecado nos afastou da presença do Deus Santo, Santo, Santo. As portas do Éden foram vigiadas após o homem e a mulher serem postos para fora.

O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida. (Gênesis 3.23-24)

 A ruptura estava marcada, o abismo entre o Santo e o corrupto, entre o Justo e o injusto estava definido. No entanto, Deus visitou Eva e lhe possibilitou o filho que não merecia ter. Deus foi na direção de Noé e lhe ofertou de sua misericórdia materializada na Arca. Assim como visitou a Abraão e Sara e a Moisés, também.  Deus foi na direção dos impossibilitados de reconciliação e os reconciliou. E em cada uma dessas vezes, o fez por meio do Cristo que pagaria com seu sacrifício vicário pela nossa impossibilidade, pelo nosso pecado, pela nossa culpa e incapacidade de voltarmos para Deus Pai.  E assim, cada um deles e nós, fomos reconciliados com o Pai, por meio da fé. Para isso fomos feitos, para nos relacionarmos com ele para o louvor de sua glória. Por isso, o convite imperativo... anda na minha presença. A ideia aponta para a redenção e restauração em Cristo. Aponta para o restabelecimento do propósito da existência humana: andar com Deus em contínua adoração.

Por outro lado, a expressão anda na minha presença também nos remete a outra especificidade notória. O chamado a Abraão, desde Ur dos Caldeus, não promove uma mudança repentina em Abraão e nem em Sara. Ambos revelarão pecaminosidade em abundância. Se a vocação para ir para uma terra desconhecida e os altares levantados mostram uma fé genuína, por outro lado, a entrega de Sara, por parte de Abraão, aos egípcios e a Abimeleque revela um homem profundamente egoísta, que desconsidera seu papel mais importante. Sara em suas indicações precipitadas com Agar e sua incredulidade na presença do Senhor, que se notabilizou por seu riso diante daquele que viera ratificar a promessa do filho bendito que viria, manifestam características de vocacionados pecadores. E que por serem pecadores e naturalmente dados ao que é perverso, precisariam andar na presença do Santo que os restauraria na caminhada.

É assim a vida cristã. Precisamos andar continuamente na presença daquele que nos resgatou de onde estávamos. Abraão não foi vocacionado por ser o Pai da Fé. Mas a presença benfazeja de Deus Santo, sua graça e misericórdia nos livra de nós mesmos! Quando andamos com Cristo sua luz vai afastando as trevas de nossa natureza má. É uma caminhada de perseverança, onde quem nos chama também nos vai corrigindo passo a passo numa caminhada contínua, até o dia em que estaremos plenamente diante dele e livre de nossas imperfeições.

Portanto, quando leio o capítulo vinte e dois de Gênesis e vejo um Abraão que confia em Deus, a ponto de levar seu filho Isaque para ser sacrifício num holocausto, vejo um homem pecador que teve sua vida miserável transformada por meio de um Deus que graciosamente disse anda na minha presença. Foi esse Deus que o transformou, enquanto Abraão permanecia na presença daquele que o tirou de onde estava. É essa, ainda hoje, a mensagem do Deus Todo poderoso, que é perfeito, para pessoas chamadas de lugares distantes e imperfeitas. Anda na minha presença, desse modo,é a mensagem de esperança para os que sabem de onde vieram e que têm a consciência de que não podem estar sozinhos, como eu!

 


   Autor
   Pr. Ilton Sampaio de Araújo

Ilton S. Araújo é pastor na Igreja Congregacional Campograndense, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, graduado em História e MBA em Gestão em Educação. Ilton é diretor pedagógico e também professor no Seminário Teológico do Oeste.


 

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