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 Rm 12.3: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um”.

 

A
 mitologia grega sempre foi conhecida por expressar traços humanos nos seus deuses e semideuses. Esses personagens eram dotados de nobreza, virtude, força e poderes sobre-humanos, mas também deixavam transparecer seus defeitos e mazelas, que os aproximavam daqueles que os veneravam e temiam. Um dos seus personagens mais conhecidos é Narciso, um jovem que, como conta a lenda, era muito belo e atraente. Sua beleza era algo tão admirável que o próprio Narciso, ao contemplar seu reflexo nas águas calmas de um rio, apaixonou-se por ela. O fim dessa história é que ele morreu ali mesmo, às margens do rio, fascinado pela sua própria beleza.

 

Apesar de ser uma ficção, essa lenda expressa com propriedade algo muito comum em nossos dias. Os homens tem se mostrado, cada vez mais, amantes de si mesmos. Parecem estar, como Narciso, apaixonados pela autoimagem que fizeram em suas mentes e, assim, incapazes de observar quem realmente são. Essa tendência narcisista tem sido alavancada pelo uso da tecnologia e pela exposição da imagem na internet e redes sociais. As fotos e filmes particulares se multiplicam na velocidade de um clique e estão, instantaneamente, povoando os meios de interação social. Afinal, qual o propósito de tirar uma foto se não for para compartilhar no Facebook ou no Instagram? Aliás, não existe mais foto de momento. Daquelas que pegaram você piscando ou desprevenido. Não precisamos mais “revelar o filme” para ver o resultado. Se ficou ruim, é só clicar novamente (umas 10 vezes!).

 

Não me entenda mal. Não sou crítico da tecnologia, das redes sociais e muito menos das fotografias. Meu filho mais novo tem apenas 6 meses e, com certeza, já tem mais fotos que eu em toda a minha infância (talvez até se somar as da minha juventude....)! O meu ponto aqui é que as pessoas têm usado as fotos não tanto como meio de recordação ou celebração de eventos e datas importantes, mas como ferramenta de promoção pessoal nas redes sociais, muitas vezes extrapolando a realidade. Isso é expressão (e continua retroalimentando) uma cultura de supervalorização da autoimagem e uma vaidade descontrolada, que gera uma necessidade contínua de admiração, medida pelo número de curtidas e comentários, que turvam a visão para o que é real.

 

Como pudemos perceber em Romanos 12.3, esse não é um problema novo. O apóstolo Paulo, há quase 2000 anos, já alertava os irmãos de Roma que eles não deveriam “pensar de si mesmo além do que convém”, mas precisavam olhar para si mesmos “com moderação”. Mas, mesmo após todo esse tempo e diversos alertas, o problema persiste. O contexto em que Paulo escreve é sobre os dons de cada irmão na igreja (ver os versos seguintes). Aparentemente, alguns andavam envaidecidos pelos dons que possuíam, julgando-se melhores do que os demais. Estavam fazendo uma autoimagem além do que convinha, superior à realidade. Assim como Narciso, apaixonaram-se por si mesmos e pelos seus dons, levando-os a não perceberem a situação real de cada um. A exortação paulina é para que voltassem à humildade.

 

Nos nossos dias, não é diferente. Tenho visto muitos irmãos e irmãs, líderes, pastores e seminaristas, que andam apaixonados por si mesmos! Receberam dons do Senhor e passaram a amá-los mais do que ao próprio Cristo. Será que você não conhece pessoas que tem mais prazer nos elogios após um sermão do que na própria exposição da Palavra? Não sabe de pessoas que esperam os gracejos após o período de cânticos congregacionais que os exaltam pelas habilidades de canto ou instrumentais? Nunca viu alguém que, vaidosamente, sente-se satisfeito por ter mais conhecimento teológico do que os outros? Basta olhar as redes sociais que você verá pessoas apaixonadas pelo dom, orgulhosamente se expondo e julgando como inferiores todos aqueles que, na sua ótica, não são tão bons quanto ele mesmo, nisso ou naquilo.

 

O grande problema disso é que essas pessoas são EGÓLATRAS! Tornaram seu ego como um ídolo diante de si e, portanto, não toleram ser contrariados nas suas convicções próprias. Colocam a sua imagem como o alvo do seu amor e paixão. Sua igreja é a melhor, sua pregação a mais eficaz, sua música a mais bela, seu conhecimento teológico o mais profundo. É triste notar que, infelizmente, em muitos meios essa egolatria é motivada por um suposto conhecimento teológico. Nesse caso, me refiro a pessoas que passaram a estudar e descobrir verdades teológicas, mas que não foram transformadas por essas verdades que agora professam. Ao invés do estudo teológico ter gerado humilhação e um coração contrito, tem gerado uma mente embrutecida, vaidosa e soberba, como se o fim do estudo teológico fosse o conhecimento em si mesmo. Não! A finalidade de estudar teologia é poder glorificar o nome de Deus, em Cristo, pelo entendimento, exposição e vivência da Palavra de Deus em sua essência, sem variações. Ao colocarem o conhecimento como o bem mais desejado, esquecem-se que o alvo do estudo bíblico é se aproximar mais de Cristo e se tornar mais semelhante a ele.

 

Diz-se que John Bunyan, o autor do conhecido livro “O Peregrino”, certa feita, ao descer do púlpito após a pregação, foi procurado por uma irmã que passou a elogiá-lo por sua prédica. Ele, sem perda de tempo, respondeu aos elogios da seguinte forma: “A irmã é a segunda pessoa a me elogiar pelo sermão. O primeiro foi o diabo!” Parece um tanto rude (e é...), mas havia um compromisso tão grande contra o orgulho no coração deste homem de Deus que a aproximação da tentação o fez refutar qualquer investida. O que ele sabia é que deveria amar mais a Deus do que a sua obra; amar mais a mensagem do que o mensageiro; amar mais a imagem de Deus refletida na Igreja do que a sua imagem impressa nas telas. Paulo também trata desse assunto e é enfático ao falar com os gálatas: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gálatas 6.14).

 

Cuidado com a Egolatria! Não se apaixone por si mesmo ou por seus dons. Apaixone-se por Cristo. Amar a qualquer outra coisa te conduzirá, assim como Narciso, a perecer diante da imagem que você admira.

 

Que o Senhor nos ajude e que toda admiração e glória sejam a Ele!

 

 


   Autor
   Pr. Rodrigo Suhett

Rodrigo Suhett é pastor na Igreja Quadrangular do Bairro Adriana, Rio de Janeiro.
Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Teologia Bíblica. Rodrigo também é professor no Seminário Teológico do Oeste.

 


 

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